FRAGMENTO DE FUGA

Ela não contou isso a ninguém, mas naquele dia algo mudou. Foi um dia difícil, e talvez ela não quisesse relembrar as cenas que doíam tanto. A atmosfera estava estranha, perceptível até para quem parecia insensível. Ela disse muitas coisas no momento em que extravasou suas emoções e não soube lidar com o peso da interpretação de tudo aquilo que se fala.
Agora, o corpo parecia ter desaprendido a viver como antes. Em troca, mergulhava — sem defesa — na ousadia dos próprios sentimentos. Às vezes, ela se pegava presa na condição do “e se?”. Não porque acreditasse que algo mudaria, mas porque precisava se provar através de justificativas, para que talvez sua consciência permanecesse clara.
Naquele dia, ela libertou uma parte que aprendera a esconder por medo do julgamento. Também foi o medo que a moveu — mas não o medo comum. Era o medo da incompreensão. O medo de tudo acabar e ela se tornar apenas fundo de papel. Ninguém percebeu que, na verdade, ela esteve a poucos passos de pôr um fim naquilo que a corroía. Afinal, quem se importaria com alguém que tenta desbravar o mundo?
Tudo poderia ter se encerrado ali, ficado como uma memória abandonada. Mas os gatilhos a devolvem ao dia em que machucou mais a alma do que o corpo. E se alguém tivesse percebido? Um olhar distante. Porque, até no básico, um abraço pode ser esquecido em nome de tentar consertar as coisas.
Agora, o que ela tentou apagar virou um trem em movimento, carregando vagões de emoções. Sim, as coisas mudaram. Restava a chance de ser ouvida — ou a aceitação de pôr um ponto final em algo que não se pode mudar.
Dizer que ela poderia ir para onde quisesse era uma bela frase. Mesmo sem poder esquecer, era preciso continuar — talvez ignorar. O mais importante é que ela decidiu lutar contra uma fuga inescapável.

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